Archive for junho \28\UTC 2007

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INSONIA

28 junho, 2007

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Ela, sentada na cadeira e ouvindo Chico Buarque, olha para os pés e novamente olha a tela. A única luz do quarto é aquela tela.
Ora não sabe se olha os pés ou a tela, já mediu com o olhar cada milímetro da pele branca e das unhas recém pintadas e na caixa de luz com letrinhas coloridas, nada mais acontece. Mas poderia acontecer, quem sabe instantaneamente pisque uma novidade.
Uma voz, de lábios finos e desmanchados com ar de quem acaba de acordar vem ter com ela…
– São quase 5 da manhã, você ainda está aí?
– Sim.
– Porquê?
– Estou sem sono e cansei de ficar na cama, estou ouvindo música.
– Pintou as unhas?
– Sim, como sabe?
– Não sei, só imaginei…
– Ahm.
– Olha, em pouco já vai clarear, talvez seja melhor você dormir. Vai ver, aproveitará melhor o dia e quem sabe a noite também.
– Que tal então você olhar o calendário, amanhã que já é hoje ainda é quarta-feira… não há nada para se fazer nas quartas.
– Ainda assim, vá dormir… às vezes tenho a impressão de que você não dorme.
– Não me mande dormir. A não ser que, me convide para sua cama.
– …
– …
– Bom, preciso ir se não chegarei atrasado ao trabalho.
– Tá. Vou dormir.

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POUPÉE TISSU

24 junho, 2007

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Às vezes parece ter rosto de louça
mas quase sempre
não tem não

Amarela, descostura
rasga e fura
Faz-se uma sutura.

A menina mexe e remexe
faz tomar sol
e esquece

Faz descer escada
batendo a cabeça
de degrau em degrau

Ainda que se esqueça
é frágil
e acaba com o tempo

A boneca
que tem um coração
por dentro.

Ao mineiro que foi se esconder em terras frias…

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SANTO ANTONIO

16 junho, 2007

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Eu nunca pesquisei sobre, mas algo que sempre me encucou é o Dia dos Namorados não ser 13 de junho junto do Dia de Santo Antonio, o Santo Casamenteiro. Bom, talvez seja porque nem sempre namoro e casamento combinem, além é claro, de muitas vezes o último causar arrepios nos supostos noivos.
Uma das igrejas na minha cidade, que é uma dessas com realmente cara de interior, tem como padroeiro o já citado santo e como era de esperar faz quermesse comemorativa nesta época. Tenho que confessar: particularmente adoro festas juninas, mas não me agrada muito essas quermesses abertas, com muita gente e que no final da noite os contadores somam as cifras arrecadadas.
Desta quermesse tenho boas e muito doces lembranças da infância, afinal, meus pais levavam minha irmã e eu para brincarmos na barraca da pesca e comprarmos docinhos na barraca dos doces. Ai! Já ganhei cada coisa inútil e cafona, até cisnes de louça que levava para festar no chuveiro, mas por sorte nunca aquelas bonecas de plástico com olhos super azuis e um pequeno tufo de cabelo de origem duvidosa. Quanto aos doces, era sofrível ter que escolher entre tantos, mas os meus preferidos sempre foram os que tivessem chocolate ou morango e que pudessem ser lambidos e me deixassem com mais do que as mãos meladas. Até uma época só essas foram minhas preocupações da data. Com doze ou treze anos, a idade das revistas teens, passei a atentar para outro lado, o místico e romântico, pois era incontável o número de simpatias para “arrumar um namorado” que se tomava conhecimento e claro, o número de garotas que não só falavam sobre, como também faziam! Não sei se eu não queria um namorado ou se só não acreditava em simpatias, mas nunca me dei ao trabalho de fazer uma.
Acho que passei uns bons anos ignorando a data, a quermesse e tudo mais, mas este ano passei por lá e me lembrei do quanto era divertido. Não fui nenhuma noite, não comprei doces, não brinquei de pesca, não fiz simpatias e nem fui buscar o tão famoso pãozinho de Santo Antonio, só vi pela televisão os devotos e claro… os solteiros.
Ainda comentei com minha mãe como são engraçadas várias das mandingas que supostamente atraem o amor e o quanto muitas pessoas acreditam nelas, como aquela de tirar uma lasquinha do pau do santo. Ah! O tal pau é um desses mastros típicos de festas juninas onde é colocada uma bandeira do santo festejado na ocasião, hein.
Uma dessas tradições, que eu não conhecia, mas fiquei conhecendo há poucas horas a do “bolo de Santo Antonio” e funciona assim: Na festa, além de todos os outros doces, é vendido um bolo com esse nome, as pessoas chegam lá e compram quantos pedaços querem e podem ou não, serem “brindadas” pelo Santo. Entenderam?
O brinde em questão é uma medalhinha que pode ser achada dentro do bolo, mas não em todos os pedaços. Não quer dizer que comprando você irá automaticamente achar uma dentro do seu, é uma questão de… Sorte? Em alguns lugares é colocada só uma medalhada para sabe-se lá quantas assadeiras de bolo, já em outros, colocam mais. Aqui eu não sei como funciona.
O quê posso dizer é que fui uma dessas pessoas. É, podem acreditar! Estava eu lá, sentadinha na casa da minha avó comendo bolo com guaraná, quando vejo uma coisinha dourada brilhando entre um recheio e outro. Como eu desconhecia a tradição, pensei logo que tinham derrubado alguma coisa durante o feitio do doce e ao tirar a tal coisa… era uma medalhinha de Santo Antonio! Não preciso nem dizer que foi a sensação da mesa, não é?
Eu com cara de quem nunca esperou encontrar uma coisa dessas em um bolo, minha irmã rindo todas as risadas e minha vó festando todas as tradições e presságios matrimoniais.
Bom… A medalhinha veio no bolo… E namorado, Santo Antonio, vem dentro do que?

13 de junho, 2007. Dia de Santo Antonio. Lua minguante.