Archive for fevereiro \22\UTC 2007

h1

PITANGAS

22 fevereiro, 2007

pitanga.jpg

choram pelos muros
os brincos de princesa, as mangas e as acerolas
mas onde estão as pitangas?

h1

PEDRO

17 fevereiro, 2007

passaro-solitario.jpg

Conheci Pedro há muito tempo, tanto que já não sei mais.
Era assim:
Magro, nem baixo e nem alto – mas mais baixo do que alto.
Sempre sorria ao cumprimentar – uns sorrisos tímidos, que em algumas horas deixava aparecer um pouquinho da tristeza dos anos que pesavam e em outras, o orgulho que tinha das crias.
Os olhos, pequenos e puxados – eram diferentes ao dos irmãos – o suficiente para que quando criança pensasse ser adotado.
Sua fantástica mente impúbere fez sofrer, queria conhecer os pais verdadeiros, e o garoto, mergulhou em planos. Tinha uma mala planejada, pensava em trabalhar e ter dinheiro para ir ao Japão. Pedro nunca foi ao Japão
Entendeu que não era japonês, mas era outra coisa – pintor.
Pintor desses que pintam paredes e muros, que trazem cor para nossa casa e que assim, ainda que nos submeta á um monocrômico labirinto de paredes, não deixam que este seja de um pálido e enjoativo branco.
Em muitos finais de tarde, depois das pinceladas diárias, ouvi seu pulmão reclamar – dizer-se cansado e machucado pelo forte cheiro das tintas. As máquinas nem sempre são tão resistentes assim.
Foi em sua Variante branca, que em nossos catorze anos, voltamos de tantas festas e seguimos para a escola protegidas da chuva.
E o lanche? Ah sim! Era ele que aos sábados fazia nossos lanches, aqueles que antecediam filmes e doces que pareciam sonhos de catedrais.
Outra coisa dele e só dele, era o São Benedito – todas as noites lá estava em cima da máquina de lavar o ídolo já gasto pelo tempo e pelas mãos, sempre ao lado de uma vela. Devoção ou promessa, não sei.
Como nós, ele era uma máquina cheia de outras maquininhas por dentro e como máquinas são máquinas…
Quando jovem uma delas, chamada coração, deu sinais que aquele era um homem de coração fraco. Foi cuidado.
De algum tempo para cá seu coração resolveu inverter os passos, trocar as horas e bater em um ritmo não tão alegre como o samba. Estou certa de que se pudesse teria pedido um novo ao Mágico de Oz, mas não houve tempo de encontrá-lo e nem aos sapatinhos de rubi ou ao balão colorido com todas as cores do Mundo.
O coração de Pedro parou.
Chegou à hora de deixar a máquina material, bater as asas que até então eram latentes e voar para um lugar onde não se precisa acender velas á São Benedito, porque agora, estão lado a lado.

h1

MADRUGADA DE DOIS DE JULHO

11 fevereiro, 2007

La combinacion negro - Holdan

Madrugada, primeira semana de férias. Uma caneca de achocolatado (mas não Nescau) bem quente e um pacote de biscoito água e sal.
Gosto de canecas, domino-as melhor em minhas mãos que outros copos e por mais que inventem práticos biscoitos em pacotinhos, o sabor sempre vai ser diferente daquele que eu tentava camuflar na infância.
Aquele rapaz de olhos grandes, sobrancelhas sutilmente definidas, nariz com personalidade e lábios desmanchados me fez lembrar que meu edredom era grande demais… para uma só pessoa. Queria abraçar.
Um dia me contaram uma estória qualquer, a qual sempre achei besteira, pensava que há coisas que passam e que se não se esquece, ao menos substitui por outras, mas agora acho que me enganei. Queria teus olhos grandes e assustado sobre mim, talvez até dissimulados, mas prefiro acreditar que sou melhor atriz que você e que nada importa. É, prefiro.
É engraçado como o calor conforta, e porque não ao contrario?
Tão estranho, mesmo que queime os segundos de calor antes da queimadura sempre confortam, por mais que seja breve, mas que confortam ninguém pode negar… desde que tenha dado atenção a aqueles segundos.
Fomos por tanto tempo uma chama morna há alguns metros, um aquecimento confortante, mas de repente sentimos arder e não hesitamos em “manter uma distância segura”, ou será que foi você que racionalmente nos poupou de uma queimadura mais séria?
Não sei e para falar a verdade, isso nem importa muito, afinal, já disse uma vez que algumas coisas não importam muito. Do mesmo modo que o filme que eu ví não importava… em tantas cenas me perdi imaginando nós dois ali, na minha sala, nossos toques.
Acho que ás vez te confundo e que tudo é uma pequena confusão. Bom, nem tudo né.
As músicas que ouço não são confusas e posso perceber todos instrumentos, as palavras, as vozes e o que é melhor, posso até mesmo ver em cada som os rostos engraçados desses ‘tocadores’ de blues. Gosto tanto dessas músicas!
Quando as ouço tenho vontade de correr, dançar e fazer alguma coisa boba… mas queria que você estivesse perto para que pudéssemos fazer juntos. Sei que gosta tanto delas como eu, penso até que, goste mais.
O último biscoito do pacote, aquele que é seu, está lá te esperando e deixei cair atrás do sofá. Por que você não vem?
Vamos comer coisas quentes e nos reconfortamos um no outro, lembra que o calor conforta?
Abraço-quente-calor-conforto-saudade-distância-desconhecido-desconhecida-passado-presente-somos-doidos.
Sabe, quero um beijo perto do ombro e brincar com suas mechas escuras.

h1

PORCELANA

4 fevereiro, 2007

boneca-de-louca-anos-20.jpg

De porcelana
tão branca e fria

fria e insípida
como todo o branco

às vezes uma cor
um pincel esbarrado

um borrão colorido
logo apagado

mas na frieza arde
uma flâmula

insuportavelmente quente

tão forte
mas tão imperceptível

alastra-se pelos papéis
queima as poesias.