h1

DIÁLOGO 1

15 março, 2009

mulher-maravilha-real

[Enrola o cabelo. Fica esfregando uma perna na outra]

– O quê foi?

– Quê?

– Que você está assim, agitada?

– Nada.

– Tá.

[Ele, lendo. Ela, olhando o nada com o olhar perdido]

– Amor, você gosta de mim?

[Ele levanta os olhos do livro e a olha de esgueio] – Gosto.

– Mas eu falo gostar mesmo, gostar de verdade. Tipo, amor, sabe?

– Gosto, “tipo amor”.

[Levanta as sobrancelhas balbuciando um “hum” de quem entendeu]

[Escorrega pela cabeceira da cama, deita. Vida para um lado, depois para o outro. Vai ao banheiro. Ele não sabe e nem se

interessa em saber o que ela foi lá fazer, mas vê de relance todas as luzes acesas: a do teto, as em volta do espelho e uma

extra que ela mandou colocar dizendo que era melhor para se maquiar]

[Ela volta. Escovou os cabelos e tinha no ar um aroma de menta, havia também escovado os dentes]

– Amor…

[Desinteressado] – Hum?

– O que você gosta em mim? Por quê você gosta de mim?

– Não sei. Porque você é inteligente? Acho que é por isso.

– Você só gosta da minha inteligência?

[Estafado] – Não. Gosto do seu jeito de andar, da forma como gesticula com as mãos, do um jeito bonitinho que você sorri…

Ahn… É isso.

[Insatisfeita] – Hum

– O quê você mais gosta dessas coisas de mulher?

[A esta altura ele já larga o livro no colo, não há maneira de concentrar-se]

– Que tipo de coisas, características?

[Debocha] – Não, essas eu já sei, né.

– Roupas, acessórios, enfim, essas “coisas de mulher”.

– Ah. Gosto de saia, dessas blusas igual sua amiga estava usando hoje, gosto também desses sapatinhos que você usa e de

lingerie.

[Levanta só uma das sobrancelhas] – Então você gostou dela? Achei que ia gostar mesmo…

– Você namoraria uma ruiva?

[Ri e passa a mão pelos cabelos] – Se não tivesse aquela cor de puta pegando fogo, sim.

– Morena?

– Que pergunta idiota.

– É, tá bom.

– Loira?

– Já namorei.

– Colorida?

[Ri e fica com olhar de quem quase pode materealizar a imaginação] – Depende, né.

– Você ia gostar de mim se eu deixasse o cabelo bem comprido?

[Aponta para a capa de uma revista caida no chão] – Igual aquele ali.

– Até ia, mas gosto mais dele assim.

– E bem curto, curtíssimo, raspado?

– Ia ficar feio, mas cabelo cresce né.

[Deita na cama. Se contorce e pega a revista sem descer. Folheia, para em uma página]

– E se eu fosse com você numa festa usando essa roupa?

[Olha ressabiado, meio sem saber o que dizer]

– A roupa é bonita, mas não ia ficar bom né.

– Não combina comigo?

[Tenso] – Ah, você sabe. Bom, se veste como quiser.

[Vira pro o lado, não está mais sentada de frente para o nada. Senta de borboleta, enconstando nas pernas dele, sem apoio

para as costas]

– E seu eu fosse bonita, você ia gostar de mim?

[Continua olhando para frente. Vislumbra uma imagem]

h1

FULANA

8 dezembro, 2008

abby-try-again7

Umbigo profundo, o sol com o qual ela conversava. Poucas sardas, sobrancelhas desenhadas e uma melodia.

Alta, menina que me fazia ser criança – mulher.  E eu ainda me perguntava porque ela não usava maquiagem!

Me levou pela mão, tive medo que soltasse e eu me perdesse.

Me roubou a cena, a noite, o beijo.

Foto:  Abby try again

h1

“INVASÃO”, ou “DESEJO”

24 novembro, 2008

42-18944983

Estavam insuportavelmente felizes e eu não participava daquela felicidade, tão pouco, naquelas horas, poderia compreendê-la; era como se todos eles fossem completamente alheios.  Em uma das manhãs quando levantei e caminhei sozinha pela casa suja e silênciosa, livre da presença deles, mas sabendo que ainda estavam lá, tive vontade de mandá-los urgentemente embora; de esfaquear-lhes a felicidade com as minhas mais contundentes tristezas.

h1

OBSCENIDADES

2 novembro, 2008

Ela escondia os pés,

ele beijava-lhes as mãos

e falava baixo obscenidades em concha.

h1

INSÔNIA

26 setembro, 2008


Ela, sentada na cadeira e ouvindo Chico Buarque, olha para os pés e novamente para a tela. A única luz do quarto é aquela tela.
Ora não sabe se olha os pés ou a tela; já mediu com o olhar cada milímetros da pele branca e das unhas recém pintadas – e na caixa de luz com letrinhas coloridas, nada mais acontece. Mas poderia acontecer, quem sabe instantaneamente pisque uma novidade.
Uma voz, de lábios finos e desmanchados com ar de quem acaba de acordar vem ter com ela…
– São quase 5 da manhã, você ainda está aí?
– Sim.
– Por quê?
– Estou sem sono e cansei de ficar na cama, estou ouvindo música.
– Pintou as unhas?
– Sim, como sabe?
– Não sei, só imaginei…
– Ahm.
– Olha, em pouco já vai clarear, talvez seja melhor você dormir. Vai ver, aproveitará melhor o dia e quem sabe a noite também.
– Que tal então você olhar o calendário, amanhã que já é hoje ainda é quarta-feira… não há nada para se fazer nas quartas.
– Ainda assim, vá dormir… às vezes tenho a impressão de que você não dorme.
– Não me mande dormir. A não ser que, me convide para sua cama.
– …
– …
– Bom, preciso ir se não vou chegar atrasado.
– Ok. Vou dormir.

Foto: Alfio Torrisi

h1

DESLIZANDO

29 maio, 2008

Acabara de descobrir a cremosidade desbotada e amarela da margarina; por aqueles dias deliciava-se em fazer deslizar a faca sobre biscoitos e torradas.
– É light, não tem problema.
Esquecia-se do colesterol, da caloria.
Cobria tudo com aquele tom, aquele sabor. Era mais que o sabor: era a textura! Encantava-se.
Desenhava caminhos e solos arados, tentava nivelar pequenos montes que restavam no pote e perguntava-se como algumas pessoas poderiam comer, até mesmo viver, com aquela confusão de curvas que faziam; sentiu-se andradiana, começou a observar potes alheios.
Queria viver uma vida margarinizante na ponta de uma faca de mesa.

h1

LEMBRANÇAS

6 maio, 2008

de repente, na penumbra da cozinha, sinto na garganta

aquela mesma sensanção da infância

que parece engolir-me a vida.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.